Chegamos em Minsk já tarde da noite. Os "quartos de repouso" da rodoviária, achados a certo custo com a ajuda de um motorista bielorrusso, mereceriam elogios em qualquer ocasião por sua tranquilidade eficiente e simpática, coisas muito raras numa rodoviária, naquele momento mais pareciam um hotel de cinco estrelas, vistos com olhos fartos de Eurolines. A babushka da recepção não falava uma palavra de inglês, mas dominava surpreendentemente as técnicas da mímica e parecia feliz por colocá-las em prática. Munidos de um Russian phrasebook e tentando decifrar o cirílico com nossas lembranças do alfabeto grego e das distantes aulas de matemática – pi e beta, estão todos aqui –, conseguimos nos entender e adiar o pagamento do quarto duplo até o dia seguinte, já que havíamos chegado sem nenhum kopeck bielorrusso no bolso. Pela manhã, muito mais limpos e descansados, seguimos para o centro da cidade. Salvo uma ou outra intrometida marca ou fast food globalizados que teimavam em aparecer em algumas esquinas, parecia que estávamos entrando em um filme de propaganda bolshevique, com direito a cabelo, maquiagem e figurino, além de cenários impecavelmente funcionais, repletos de foices, martelos, Lenins de pedra e bronze, estrelas vermelhas e concreto. Tudo aparentemente patrocinado e vigiado por um senhor de bigode robusto, cujo retrato não se perde de vista por mais de cinco minutos. Um tal de Lukashenko, que, desde os anos 1990, parece não se conformar com o fim da União Soviética e tenta recriar a ditadura do proletariado, com forte ênfase no primeiro termo da expressão. Para manter tudo em ordem, um ou dois oficiais a cada quarteirão, ora da polícia, ora do exército, ora da KGB, que na Bielorrússia ainda se encontra em plena atividade. Tentando evitar confrontos com os homens da lei e seguindo orientações expressas da Lonely Planet, nossos cliques eram sempre rápidos e sorrateiros. Ainda assim, alguns prédios, como o imponente palácio presidencial, vão ficar registrados só na memória, pois, a julgar pelo número de homens fardados a sua volta, não seria prudente tentar fazê-lo de qualquer outra maneira. Os museus estavam fechados, como costuma acontecer nas segundas-feiras, e nossa visita foi encurtada pelo trem que tinha de sair às 18h28 para São Petersburgo. Mas algo vai ficar. Vai ficar a sensação pouco comum de sermos um dos únicos espectadores de um regime cuja teimosia personalista e anacrônica é motivo de chacota até entre os vizinhos russos. E também de ver nas rachaduras brotarem pitadas de empreendedorismo ocidental e influência capitalista. Passadas quase duas décadas desde a perestroika, talvez a última chance de ir back to the US, back to the USSR.
Minsk and a short hop on the time machine
We arrived in Minsk late at night. The bus station "resting rooms", found with some difficulty with the help of a Belarusian b
Gente, 38h de ônibus é mais que os retirantes...
ResponderExcluirBoa sorte aí pela Rússia (onde imagino que vcs estejam agora). E amo os textos.
=)