quinta-feira, 16 de julho de 2009

de Paris a Minsk e as 38 horas


A viagem de Londres a Paris havia sido apenas o aperitivo. O prato principal, um tanto quanto inusitado e indigesto, ainda estava por vir: 38 horas em nossa já conhecida e temida Eurolines, a caminho de Minsk, na Bielorrússia ou Belarus, como preferir. O começo já dava o tom de todo o percurso. Partimos da olvidavelmente aprazível Galieni, rodoviária parisiense, ocupada por pombos e personagens de submundos ainda mais profundos. O ônibus partiu. Como era de se esperar, éramos as únicas cabeças castanhas, perdidas em meio a tantas loiras e de olhos azuis, a caminho de casa. Se o trajeto era longo, as paradas eram bem curtas: cinco minutos em Strasburgo, quinze minutos em Nurenberg, dez minutos num boteco polonês de beira de estrada. E que calor. As únicas paradas longas foram as de cunho inquisito-imigratório. Numa pilha de passaportes tão vermelha, os nossos já destoavam pela cor. Para confundir ainda mais, um era azul de tom Mercosul e o outro, verde, deixando nossa presença naquele ônibus cada vez mais suspeita. Na última fronteira, a única oficialmente controlada, deixamos para trás não apenas alguns falsos confortos psicológicos, como a União Européia, o Espaço Schengen, a zona Euro e aquelas estrelinhas amarelas nas placas dos carros. Fomos forçados a nos despedir também de nosso tão querido alfabeto, que só reencontraremos no fim de tudo. O primeiro novo companheiro ortográfico foi o cirílico. E assim entramos na Bielorrússia, o país que decidiu parar na década de 1970 e esqueceu de avisar ao mundo.


from Paris to Minsk and the 38 hours
The trip from London to
Paris had been just the appetizer. The main dish, a bit unexpected and hard to digest, was still to come: 38 hours on the well-known and feared Eurolines, on our way to Minsk, in Belarus or Belorussia, as you prefer. The beginning already dictated the entire tone of the journey. We started out at the forgettably pleasant Galieni, Parisian bus station occupied by pidgeons and other even darker characters. The bus left. As expected, we were the only brown-haired heads lost amidst so many blond blue-eyed ones, heading home. If the road was long, the stops were short: five minutes in Strasbourg, fifteen minutes in Nurenberg, ten minutes in a Polish roadside truck stop. And what heat. The only long stops were the ones of inquisitive-investigatory nature. In a pile of so many red passports, ours already stood out by their colour. To make things worse, one was the new blue Mercosul one and the other, the older green version, making our presence in the bus even more suspicious. At the last and only officially controlled border, we left behind not only a few fake psychological conforts, such as the European Union, the Schengen Area, the Eurozone and all those little yellow stars on licence plates. We were forced to say goodbye to our beloved and taken for granted alphabet, which we will only meet again at the end. Our first new ortographic companion was the Cyrillic alphabet. And this is how we entered Belarus, the country that decided to remain in the 1970s, but forgot to tell the rest of the world.

2 comentários:

  1. Gente... que looucura!!! 38 horas... (eu, enquanto mãe, fico feliz de só ficar sabendo disso depois que já passou...) Saudade de vocês (esperando ansiosamente pelos próximos capítulos...)

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  2. Eu, enquanto tio, estou achando ótimo viajar com vcs, fiquei apenas um pouco preocupado qdo tentei traçar o trajeto de Lausanne à Belarus pelo via Michelin e recebi:Aucune réponse correspond à votre saisie...
    Deve ser longe mesmo !!!
    se cuidem e keep posting...

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