sexta-feira, 24 de julho de 2009

Minsk e uma breve volta no tempo


Chegamos em Minsk já tarde da noite. Os "quartos de repouso" da rodoviária, achados a certo custo com a ajuda de um motorista bielorrusso, mereceriam elogios em qualquer ocasião por sua tranquilidade eficiente e simpática, coisas muito raras numa rodoviária, naquele momento mais pareciam um hotel de cinco estrelas, vistos com olhos fartos de Eurolines. A babushka da recepção não falava uma palavra de inglês, mas dominava surpreendentemente as técnicas da mímica e parecia feliz por colocá-las em prática. Munidos de um Russian phrasebook e tentando decifrar o cirílico com nossas lembranças do alfabeto grego e das distantes aulas de matemática – pi e beta, estão todos aqui –, conseguimos nos entender e adiar o pagamento do quarto duplo até o dia seguinte, já que havíamos chegado sem nenhum kopeck bielorrusso no bolso. Pela manhã, muito mais limpos e descansados, seguimos para o centro da cidade. Salvo uma ou outra intrometida marca ou fast food globalizados que teimavam em aparecer em algumas esquinas, parecia que estávamos entrando em um filme de propaganda bolshevique, com direito a cabelo, maquiagem e figurino, além de cenários impecavelmente funcionais, repletos de foices, martelos, Lenins de pedra e bronze, estrelas vermelhas e concreto. Tudo aparentemente patrocinado e vigiado por um senhor de bigode robusto, cujo retrato não se perde de vista por mais de cinco minutos. Um tal de Lukashenko, que, desde os anos 1990, parece não se conformar com o fim da União Soviética e tenta recriar a ditadura do proletariado, com forte ênfase no primeiro termo da expressão. Para manter tudo em ordem, um ou dois oficiais a cada quarteirão, ora da polícia, ora do exército, ora da KGB, que na Bielorrússia ainda se encontra em plena atividade. Tentando evitar confrontos com os homens da lei e seguindo orientações expressas da Lonely Planet, nossos cliques eram sempre rápidos e sorrateiros. Ainda assim, alguns prédios, como o imponente palácio presidencial, vão ficar registrados só na memória, pois, a julgar pelo número de homens fardados a sua volta, não seria prudente tentar fazê-lo de qualquer outra maneira. Os museus estavam fechados, como costuma acontecer nas segundas-feiras, e nossa visita foi encurtada pelo trem que tinha de sair às 18h28 para São Petersburgo. Mas algo vai ficar. Vai ficar a sensação pouco comum de sermos um dos únicos espectadores de um regime cuja teimosia personalista e anacrônica é motivo de chacota até entre os vizinhos russos. E também de ver nas rachaduras brotarem pitadas de empreendedorismo ocidental e influência capitalista. Passadas quase duas décadas desde a perestroika, talvez a última chance de ir back to the US, back to the USSR.

Minsk and a short hop on the time machine
We arrived in Minsk late at night. The bus station "resting rooms", found with some difficulty with the help of a Belarusian bus driver, would deserve praise in any situation, for their tranquility, efficiency and kindness, characteristics which are rare in a bus station. But, at that moment, they looked more life a five star hotel, seen through our weary eyes. The babushka at the reception didn't speak a word of English, but surprisingly mastered the charades techniques and seemed happy to put them at use. Armed with a Russian phrasebook and trying to decipher the Cyrillic with our memory of the Greek alphabet and some distant Math classes – pi and beta, they are all here – we made ourselves be understood and were able to delay the payment of our double room until the next day, since we had arrived without a single Belarusian kopeck in our pockets. By the next morning, much cleaner and rested, we made our way to the city center. Apart from one or another nosey global label or fast food chain that accidentally appeared, it seemed like we were entering a bolshevik propaganda film, with hair, makeup and wardrobe, as well as spotless functional sets, filled with sickle and hammer, Lenins made of stone and bronze, red stars and concrete. All apparently sponsored and observed by a man bearing a robust moustache, whose picture doesn't leave our sights for more than five minutes. A Mr. Lukashenko, who, since the 1990s, doesn't get over the fact that the Soviet Union ended, and desperately tries to recreate the so-called dictatorship of the workers, with a strong emphasis on the first term of the expression. To keep everything under control, one or two security officials on every block, either from the police, the army or the KGB, which lives on to this day in Belarus. Trying to avoid confrontation with these "men of the law" and obeying specific Lonely Planet orientations, our clicks were always fast and secretive. Even so, some buildings, like the impressive presidential palace, will be registered only in our memories, since, judging by the number of uniformed men around the building, it wouldn't be wise to try to do it any other way. The museums were closed, as usual on Mondays, and our visit was shortened by the train, which had to leave at 18h28 to Saint Petersburg. Neverheless, some things will stay with us. One of them is the uncommon feeling of being one of the only spectators of a regime whose personalistic and anachronic stubborness is made fun of even by their Russian neighbors. The other is to see Western entrepreneurship and capitalist influences grow through its cracks. With two decades having gone by since the perestroika, maybe the last chance to go back to the US, back to the USSR.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

de Paris a Minsk e as 38 horas


A viagem de Londres a Paris havia sido apenas o aperitivo. O prato principal, um tanto quanto inusitado e indigesto, ainda estava por vir: 38 horas em nossa já conhecida e temida Eurolines, a caminho de Minsk, na Bielorrússia ou Belarus, como preferir. O começo já dava o tom de todo o percurso. Partimos da olvidavelmente aprazível Galieni, rodoviária parisiense, ocupada por pombos e personagens de submundos ainda mais profundos. O ônibus partiu. Como era de se esperar, éramos as únicas cabeças castanhas, perdidas em meio a tantas loiras e de olhos azuis, a caminho de casa. Se o trajeto era longo, as paradas eram bem curtas: cinco minutos em Strasburgo, quinze minutos em Nurenberg, dez minutos num boteco polonês de beira de estrada. E que calor. As únicas paradas longas foram as de cunho inquisito-imigratório. Numa pilha de passaportes tão vermelha, os nossos já destoavam pela cor. Para confundir ainda mais, um era azul de tom Mercosul e o outro, verde, deixando nossa presença naquele ônibus cada vez mais suspeita. Na última fronteira, a única oficialmente controlada, deixamos para trás não apenas alguns falsos confortos psicológicos, como a União Européia, o Espaço Schengen, a zona Euro e aquelas estrelinhas amarelas nas placas dos carros. Fomos forçados a nos despedir também de nosso tão querido alfabeto, que só reencontraremos no fim de tudo. O primeiro novo companheiro ortográfico foi o cirílico. E assim entramos na Bielorrússia, o país que decidiu parar na década de 1970 e esqueceu de avisar ao mundo.


from Paris to Minsk and the 38 hours
The trip from London to
Paris had been just the appetizer. The main dish, a bit unexpected and hard to digest, was still to come: 38 hours on the well-known and feared Eurolines, on our way to Minsk, in Belarus or Belorussia, as you prefer. The beginning already dictated the entire tone of the journey. We started out at the forgettably pleasant Galieni, Parisian bus station occupied by pidgeons and other even darker characters. The bus left. As expected, we were the only brown-haired heads lost amidst so many blond blue-eyed ones, heading home. If the road was long, the stops were short: five minutes in Strasbourg, fifteen minutes in Nurenberg, ten minutes in a Polish roadside truck stop. And what heat. The only long stops were the ones of inquisitive-investigatory nature. In a pile of so many red passports, ours already stood out by their colour. To make things worse, one was the new blue Mercosul one and the other, the older green version, making our presence in the bus even more suspicious. At the last and only officially controlled border, we left behind not only a few fake psychological conforts, such as the European Union, the Schengen Area, the Eurozone and all those little yellow stars on licence plates. We were forced to say goodbye to our beloved and taken for granted alphabet, which we will only meet again at the end. Our first new ortographic companion was the Cyrillic alphabet. And this is how we entered Belarus, the country that decided to remain in the 1970s, but forgot to tell the rest of the world.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Paris, Londres e uma boa dose de burocracia

Se, indo pelo norte, a gente tentava escapar do eixo do mal, outros problemas surgiam. O primeiro trajeto percorrido pela viagem foram os corredores burocráticos de muitos e exigentes consulados e embaixadas. Corredores às vezes encurtados pelo espírito pós-soviético de funcionários londrinos terceirizados. Mas, às vezes, especialmente em Paris, é preciso apresentar o convite desinteressado de uma agência de viagens, que se torna sua amiga e anfitriã por meros 14 euros... E, se sua estadia for de mais de 15 dias, um roteiro detalhado de cada esquina a ser dobrada e cada souvenir a ser colecionado.
Por incrível que pareça, o atalho mais curto para driblar certos nós consulares parisienses era o Eurotunnel. O reencontro em Londres foi regado a Maltesers, double deckers vermelhos e visitas a visa offices. E, no fim das contas, o saldo foi positivo. Mais importante – ou, na verdade, mais empolgante – do que os novos vistos colados nos passaportes, agora podemos oficialmente declarar que a viagem começou às 14h30 do dia 27 de junho de 2009, justamente na cidade em que ela também vai acabar, e com um delicioso trajeto de ônibus de 7h30 como só a Eurolines sabe oferecer. Você entra num ônibus, que em dado momento entra num trem, que entra num túnel, que perfura o fundo do Canal da Mancha e, após um pouco de suor, discriminação e tédio, chega a Paris. Ou seja, se por sobre a terra não vale, as regras dessa viagem permitem pelo menos que a a gente vá por debaixo da terra. Com o trem, seria a mesma coisa, mas com menos dor nas costas e em 2h15, mas, honestamente, quem se importa? Afinal, a gente agora tinha uma estratégica parada de uma semana na Cidade Luz, para pendências acadêmicas, amigos, um pouco mais de burocracia e tartare de boeuf.

Paris, London and a good dose of bureaucracy
If, by going through the north, we tried to escape the axis of evil, other problems would nevertheless arise. The first route taken on this trip was the bureaucratic corridors of many and demanding consulates and embassies. Corridors that were sometimes shortened by the post-soviet spirit of outsourced british employees. However, sometimes, especially in Paris, you need to present an uninterested invitation issued by a travel agency, which becomes your friend and host for a mere 14 euros... And, if your stay exceeds 15 days, a detailed travel plan, with every street to be crossed and souvenir to be collected.
As incredible as it may seem, the shortest way to overcome certain parisian consular knots was the Eurotunnel. And so the London reunion was filled with Malteesers, red double deckers and visits to visa offices. At the end of the day, the result was positive. More importantly – actually, more exciting – than the new visas stamped on our passaports, now we can say that our trip oficially started in London, at 14h30, on June 27th, 2009, on the same place where it will end, with a delightful seven and a half hour bus trip with the one and only Eurolines. You get on a bus, which at some point enters a train, which rolls into a tunnel, which drills the bottom of the English Channel and, after a little sweat, discrimination and boredom, reaches Paris. If we can't fly above the ground, the rules of this trip allow us to go under it. Going by train would be the same, only with less backache and in two hours and fifteen minutes, but, honestly, who cares? After all, we now had a strategic one week stop at the City of Light to resolve ac
ademic issues, see some friends, overcome a little more bureaucracy and savour tartare de boeuf.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Air Asia X e algumas decisões importantes

A gente nunca tinha ouvido falar em Air Asia X, mas foi assim que tudo começou. Ou talvez tenha começado antes, rondado por aqui e ali, desde sempre. Mas, se essa expedição merece uma data de concepção concreta, lhe cabe o dia em que descobrimos esses voos imperativamente baratos para a Malásia. E da Malásia.

A escolha mais óbvia seria aproveitar essa oportunidade Ryanairesca e passar algumas semanas procurando um pouco de sol e maravilhas arqueológicas quando dessem trégua as monções do sudeste asiático. Mas, para o espanto de muitos – ou não –, escolhemos apenas a opção da Malásia. E o que isso quer dizer?

Com o voo Kuala Lumpur – Londres na mão, faltava acertar apenas alguns detalhes, dentre os quais... chegar à Malásia. Daí nasceu a idéia e o compromisso que emprestam o nome a esse blog: com os pés no chão. Vale no chão do ônibus, no piso do trem ou até mesmo no deque de um barco. Só fica terminantemente proibido o uso de aviões e demais máquinas volantes.

O plano inicial era descer de Paris ou Londres até os Bálcãs, passar da Europa para a Ásia na Turquia, atravessar – para a apreensão de nossas mães – Irã e Paquistão, e, depois de algum na Índia, chegar ao sudeste asiático. Mas o calor, as prováveis chuvas e as armas de destruição em massa nos fizeram mudar de idéia. Se não dava para ir pelo sul, o jeito era ir pelo norte. Por onde? Como? E quando? Isso a gente vai contar aos pouquinhos...


Air Asia X and some important decisions

We had never geard of Air Asia X, but that's exactly how it all started. Or maybe it had started before, coming uo here and there, since we don't know when. However, if this adventure deserves a specific date of creation, it must be the day on which we found out this forcefully cheap flights to Malaysia. And from Malaysia.

The most obvious choice would be to take advantage of this Ryan Airesque opportunity and spend a few weeks looking for some sun and arqueological gems, when the monsoons of Southeast Asia gave us a rest. But, perhaps for the surprise of many (or not so many), we chose only the option from Malaysia. Meaning what?

With the Kuala Lumpur – London flight in our hands, we were missing just a few details, one of which... how to get there. From this, the idea and commitment which gave this blog its name, was born: we would make our way down to Earth. We can travel by bus, by train, or even by boat; the only terminantly forbidden method of transportation is by airplane or any other flying machine.

Plan A was to go down from Paris or London making our way to the Balkans, passing from Europe to Asia in Turquey, going through Iran and Paquistan, to our mother's concern, and, after spending some time in India, reach southeast Asia. However, the heat, the rain and weapons of mass destruction made us change our mind. If we couldn't go through the south, we were left with the north. Where? How? And When? This we will tell you little by little...